Site das Teorias
Lugar onde se colocam os textos dos alunos da disciplina Teorias da Comunicação (Universidade Católica Portuguesa).
Domingo, Janeiro 11, 2004
Dos Meios às Mediações de Jesus Martín-Barbero (análise de Oriana Martinho, turma 2. O grupo, contituído também por Marlene Barreto, analisou ainda um texto de Umberto Eco. Observação: o original em Word continha esquemas; ao transferir para a linguagem do weblog, perderam-se tais esquemas. Rogério Santos)
Martín-Barbero vai analisar autores da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer, que pretendem “chegar ao estudo da massa como efeito dos processos de legitimação e lugar de manifestação da cultura em que a lógica da mercadoria se realiza.”. O estudo dos frankfurtianos vai partir da crise entendida como contracultura, implosão do social. Mais à frente, vai-se direccionar para entender o sentido dos novos movimentos políticos e dos novos espaços (onde surge a cotidianidade, a heterogeneidade e conflitualidade do cultural.). Walter Benjamin, vai ajudar-nos a melhor compreender, uma vez que esboçou algumas ideias para pensar o não-pensado pela Escola de Frankfurt: o popular na cultura como experiência e produção.
O conceito de indústria cultural nasce num texto de Adorno e Horkheimer. Para explicar este conceito Martín-Barbero enumera as seguintes dimensões: Unidade do Sistema (parte da ideia de caos cultural e afirma a existência de um sistema que regula essa mesma dispersão, através da produção em série. Esta é uma das contribuições mais válidas, mas também mais polémica); Degradação da Cultura em Indústria de Diversão (descobrem a relação que no capitalismo articula ócio e trabalho, e a impostura que implica sua proclamada separação); Dessublimação da Arte (é o oposto da dimensão anterior, já que banaliza a vida quotidiana e positiviza a arte, que se torna autónoma do mercado e essencialmente ligada à economia mercantil. “Reduzida a cultura, a arte se fará (…) oferecida ao desfrute de todos.).
O autor chama a atenção, para o que considera ser o aristocracismo cultural de Adorno, que não aceita a existência de uma pluralidade de experiências estéticas. Faz da arte seu único verdadeiro paradigma, um conceito unitário. É costume estudar-se Benjamin como pensador da Escola de Frankfurt. No entanto, a sua relação com os outros dois frankfurtianos, Adorno e Horkheimer, não foram tão amistosas/ igualitárias. Esta ruptura está no ponto de partida: enquanto Adorno e Horkheimer investigam a partir de um lugar fixo, Benjamin não o faz, pois vê a realidade como algo descontínuo. Para ele pensar a experiência (recorrendo ao uso, à percepção) é o modo de alcançar o que irrompe na história com as massas e a técnica. Vai, para isso, misturar o que se passa nas ruas com o que se passa nas fábricas, nos cinemas.
Um dos temas de Benjamin é o de A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica, traz o conceito perdido de aura. Tratar-se-ia do modo como surgem as transformações na experiência e não só na estética. E as mudanças que mais interessaram Benjamin foram as “produzidas pela dinâmica convergente das novas aspirações da massa e as novas tecnologias de reprodução.” Tal como Baudelaire, interessou-se por artes menores, pela fotografia que, ao contrário da pintura, diminuía a distância. E em contraste com Adorno (que considerava o jazz, o cinema o expoente máximo da degradação cultural), para Benjamin constitui um novo modo de recepção cultural. Este vê na técnica e nas massas um modo de emancipação da arte. Benjamin chega à relação da massa com a cidade, através da poesia de Baudelaire, onde aparece massa através de diferentes “figuras”: a conspiração – espaço, a taberna, onde se encontra o conflito entre a miséria social e a boémia, a gente da arte; pistas – massa que, por um lado, obscurece as pistas, as marcas da burguesia. Do outro, apaga as pistas do criminoso. E, por fim, marcas de identificação para controlar a massa; experiência da multidão – o prazer de estar na multidão, algo intrínseco, novo modo de sentir.
Da Crítica à Crise
O pensamento de Adorno e Horkheimer vai-se desenvolver, especialmente, com Edgar Morin, que leva ao extremo e à ruptura a proposta de Frankfurt. Para Morin, indústria cultural é o conjunto de mecanismos e operações através dos quais a criação cultural se transforma em produção. Este demonstra que a divisão do trabalho e a mediação tecnológica são compatíveis com a criação artística. Mediação é a função de meio, a comunicação entre real e imaginário. Isto é, a conjugação da produção dos media e a sua utilização aplicada à família, à sociedade. “A informação produz cada vez mais massa.”
Dos Meios às Mediações de Jesus Martín-Barbero
Adorno Horkheimer
Vs.
Walter Benjamin: o popular na cultura como experiência e produção
Indústria Cultural:
1. Unidade do Sistema;
2. Degradação da Cultura em Indústria de Diversão;
3. Dessublimação da Arte.
Adorno: contra a existência de uma pluralidade de experiências estéticas.
Vs.
Benjamin chega à relação de massa com a cidade, através da poesia de Baudelaire, onde aparece massa através de “figuras”:
• A conspiração;
• Pistas;
• Experiência da multidão.
Da Crítica à Crise:
Edgar Morin leva ao extremo e à ruptura a proposta de Frankfurt.
Teorias da Comunicação
Análise Textual
Trabalho realizado pelas alunas da turma 2:
Oriana Martinho n. 130302062
Marlene Barreto n. 130302063
Índice:
• Jesus Martín-Barbero (1997). Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro
• Umberto Eco (1979). Apocalípticos e integrados. S. Paulo: Editora Perspectiva
Sábado, Janeiro 10, 2004
ROLAND BARTHES - análise de Carla Nunes (turma 2)
[Observação: o texto contém fórmulas que, ao passarem do Word para a linguagem do weblog, perdem coerência. Aconselho a que procurem no texto da sebenta. Rogério Santos]
O texto de Roland Barthes é apresentado em três capítulos: Significado e Significante (cap. 2), Sintagma e Sistema (cap. 3) e Denotação e Conotação (cap. 4). O primeiro dos capítulos define os conceitos de signo, significado, significante, significação e valor. O segundo trata os dois grandes planos da linguagem: sintagma e sistema. E o terceiro tem que ver com aspectos de conotação e denotação semiótica. À semelhança do que foi feito anteriormente, passaremos a apresentar os conteúdos dos referidos capítulos:
Significado e Significante
Signo: Na terminologia saussureana, significado e significante são os dois componentes do signo. O plano dos significantes constitui o plano da expressão e o dos significados, o plano do conteúdo. Para o linguista Louis Hjelmslev cada plano comporta por um lado a forma e, por outro, a substância. Por forma entende-se o que pode ser descrito unicamente pela linguística, com coerência exaustiva e sem recorrer a premissas extralinguísticas; por substância entende-se o conjunto dos aspectos dos fenómenos linguísticos que não podem ser descritos sem recorrer a premissas extralinguísticas. Dado que forma e substância surgem quer no plano da expressão quer no plano do conteúdo, temos uma:
- Forma de expressão, constituída pelas regras paradigmáticas e sintácticas;
- Substância da expressão como por exemplo a substância fónica articulatória estudada pela fonética e fonologia;
- Forma do conteúdo, que é a organização formal dos significados entre si, pela presença ou ausência de uma marca semântica;
- Substância do conteúdo, que são por exemplo os aspectos emotivos, ideológicos do significado.
Significado: O significado não é “uma coisa” mas uma representação psíquica da “coisa”. Saussure marcou bem a natureza psíquica do significado chamando-lhe conceito: o significado da palavra boi não é o animal boi, mas a sua imagem psíquica. O autor levanta a questão de como classificar os significados e chega a propor duas espécies de classificações para os significados linguísticos. No entanto acaba por concluir que a linguística estrutural ainda não edificou uma classificação das formas do significado verbal, e como tal não é possível propor uma classificação dos significados semiológicos.
Significante: O significante está intrinsecamente ligado ao significado, e comporta em si um lado material que se traduz na imagem acústica do signo. O significante é um mediador material do significado.
A classificação dos significantes é a estruturação do sistema.
Significação: A significação é o acto que une o significante ao significado. A associação do som e da representação é fruto de uma educação colectiva (a aprendizagem de uma língua, por exemplo). Esta associação não é arbitrária (nenhum falante de dada língua a pode mudar) mas é, pelo contrário, necessária. De uma maneira geral o vínculo existente na língua entre significante e significado é no seu princípio, contratual.
Valor: O valor é apresentado como um conceito mais importante do que a significação. O valor está estreitamente relacionado com a noção de língua por oposição à fala. Para dar conta do duplo fenómeno de significação e valor, é dado o exemplo utilizado por Saussure – a imagem da folha de papel: se a cortarmos obtemos diversos fragmentos (A, B, C). Por um lado, cada um dos fragmentos tem um valor em relação aos outros, por outro, cada um deles tem um verso e um reverso que foram cortados ao mesmo tempo (A-A’, B-B’,C-C’) e essa é a sua significação.
Sintagma e Sistema
Os dois eixos da linguagem: Sintagma e Sistema: Sintagma e sistema são os dois eixos da linguagem. As relações e as diferenças entre termos linguísticos desenrolam-se em dois planos distintos: o plano dos sintagmas e o plano das associações. Por um lado, no discurso, as palavras contraem entre si, em virtude do seu encadeamento, relações que assentam no carácter linear da língua. Estas combinações que têm como suporte a extensão são chamados sintagmas. Por outro lado, fora do discurso, as palavras que têm qualquer coisa de comum associam-se na memória formando grupos no seio dos quais se exercem relações muito diversas. Estas coordenações são de espécie totalmente diferente das primeiras. O seu suporte não é a extensão; a sua sede está no cérebro; fazem parte do tesouro interior que a língua representa para cada indivíduo. A estas relações dá-se o nome de associativas. A relação sintagmática é in praesentia; refere-se a dois ou mais termos igualmente presentes numa série efectiva. Pelo contrário, a relação associativa une termos in absentia numa série mnemónica virtual.
Ao nível do sintagma levanta-se o problema de como o cortar uma vez que este é simultaneamente contínuo, e pode veicular sentido se estiver articulado. Sendo o sintagma por definição uma substância que tem de ser cortada, coloca-se uma outra questão; a de saber como assinalar num texto as suas unidades significantes uma vez que o sintagma, sob a forma de fala, se apresenta como um “texto sem fim”. Para tentar esclarecer este ponto o autor apresenta o método das comutações. O sistema é visto sob a forma de uma série de campos associativos. Os grupos formados por associação mental não se limitam a pôr lado a lado os termos que apresentam qualquer coisa em comum; a inteligência capta também a natureza das relações que os ligam em cada caso e cria tantas séries associativas quantas as diversas relações. Umas vezes há comunidade dupla de sentido e de forma, outras apenas de sentido e de forma. Perante esta dupla articulação da linguagem humana são distinguidas duas espécies de oposições – oposições distintivas e oposições significativas. O autor apresenta o sistema de classificação das oposições distintivas dado por Cantineau, e aborda a questão da transformação deste tipo de oposições em semiologia, isto é, em que é que se podem transformar estes tipos de oposições.
Denotação e Conotação
O autor começa por apresentar um sistema de comunicação em que, como em qualquer sistema, existem: o plano da expressão (E), o plano do conteúdo (C) e a significação coincide com a relação (R) dos dois planos: E R. C. De seguida convida-nos a supor a hipótese de este sistema ERC se tornar num simples elemento de um segundo sistema. Caso em que teríamos dois sistemas imbricados mas desligados entre si. A separação dos dois sistemas pode ser feita de duas formas diferentes, consoante o ponto de inserção do primeiro sistema no segundo, formando conjuntos opostos:
- Num caso o primeiro sistema (ERC) transforma-se em plano de expressão ou significante do segundo sistema: o primeiro sistema constitui o plano de denotação e o segundo o plano de conotação.
- Noutro caso o primeiro sistema (ERC) transforma-se no plano de conteúdo ou significado do segundo sistema: é o caso das metalinguagens.
Os pontos seguintes tratam o papel da linguística da conotação na sociedade passando por uma caracterização da conotação em termos de elementos constitutivos, de uma distinção entre semiótica conotativa e metalinguagem, e de metalinguagens linguagem-objecto de novas metalinguagens.
Acetatos
Roland Barthes (1981),
Elementos de Semiologia. Lisboa: Edições 70
Significado e Significante
Signo
Na terminologia saussureana, significado e significante são os dois componentes do signo.
O plano dos significantes constitui o plano da expressão e o dos significados o plano do conteúdo. Para o linguista Louis Hjelmslev cada plano comporta por um lado a forma e, por outro, a substância.
- Por forma entende-se o que pode ser descrito unicamente pela linguística, com coerência exaustiva e sem recorrer a premissas extralinguísticas;
- Por substância entende-se o conjunto dos aspectos dos fenómenos linguísticos que não podem ser descritos sem recorrer a premissas extralinguísticas.
Dado que forma e substância surgem quer no plano da expressão quer no plano do conteúdo, temos uma:
- Forma de expressão, constituída pelas regras paradigmáticas e sintácticas;
- Substância da expressão como por exemplo a substância fónica articulatória estudada pela fonética e fonologia;
- Forma do conteúdo, que é a organização formal dos significados entre si, pela presença ou ausência de uma marca semântica;
- Substância do conteúdo, que são por exemplo os aspectos emotivos, ideológicos do significado.
Significado
O significado não é “uma coisa” mas uma representação psíquica da “coisa”. Saussure marcou bem a natureza psíquica do significado chamando-lhe conceito: o significado da palavra boi não é o animal boi, mas a sua imagem psíquica.
Significante
O significante está intrinsecamente ligado ao significado, e comporta em si um lado material que se traduz na imagem acústica do signo. O significante é um mediador material do significado.
Significação
A significação é o acto que une o significante ao significado.
Valor
O valor é apresentado como um conceito mais importante do que a significação. O valor está estreitamente relacionado com a noção de língua por oposição à fala.
Sintagma e Sistema
Os dois eixos da linguagem: Sintagma e Sistema
As relações e as diferenças entre termos linguísticos desenrolam-se em dois planos distintos:
- o plano dos sintagmas
- o plano das associações.
A relação sintagmática é in praesentia; refere-se a dois ou mais termos igualmente presentes numa série efectiva. Pelo contrário, a relação associativa une termos in absentia numa série mnemónica virtual.
Saussure viu o sistema sob a forma de uma série de campos associativos.
Os grupos formados por associação mental não se limitam a pôr lado a lado os termos que apresentam qualquer coisa em comum; a inteligência capta também a natureza das relações que os ligam em cada caso e cria tantas séries associativas quantas as diversas relações. Umas vezes há comunidade dupla de sentido e de forma, outras apenas de sentido e de forma. Qualquer palavra pode sempre evocar tudo o que é susceptível de lhe ser associado de uma maneira ou doutra.
Denotação e Conotação
Em qualquer sistema de comunicação existe:
- o plano da expressão (E), o plano do conteúdo (C) e a significação coincide com a relação (R) dos dois planos: E R. C.
Hipótese: ERC: simples elemento de um segundo sistema.
A separação dos dois sistemas pode ser feita de duas formas diferentes, consoante o ponto de inserção do primeiro sistema no segundo, formando conjuntos opostos:
- Num caso o primeiro sistema (ERC) transforma-se em plano de expressão ou significante do segundo sistema:
- o primeiro sistema constitui o plano de denotação e o segundo o plano de conotação.
2 E R C
1 ERC
Um sistema conotado é um sistema cujo plano de expressão é ele próprio constituído por um sistema de significação.
- Noutro caso o primeiro sistema (ERC) transforma-se no plano de conteúdo ou significado do segundo sistema: é o caso das metalinguagens.
2 E R C
1 ERC
Uma metalinguagem é um sistema cujo plano do conteúdo é ele próprio constituído por um sistema de significação.
A conotação abarca significantes, significados e o processo que une uns e outros – a significação.
É o inventário destes três elementos que é necessário elaborar em primeiro lugar para cada sistema.
Os significantes, chamados de conotadores, são constituídos por:
- signos (significados e significantes reunidos) do sistema denotado. Vários signos denotados podem reunir-se para formar um só conotador – se tiver um só significado de conotação.
O significado da conotação tem um carácter simultaneamente geral, global e difuso: é um fragmento de ideologia.
Metalinguagem e Semiótica conotativa
Na metalinguagem os significados do segundo sistema são constituídos pelos signos do primeiro.
Na semiótica conotativa os significantes do segundo sistema são constituídos pelos signos do primeiro.
Noção de metalinguagem proposta põe Hjelmslev:
Sabendo que uma operação é uma descrição baseada no princípio empírico, isto é, não-contraditório (coerente), exaustivo e simples, a semiótica científica ou metalinguagem é uma operação, enquanto a semiótica conotativa não o é.
A noção de metalinguagem não deve ser reservada às linguagens científicas; quando a linguagem articulada, no seu estado denotado, se encarrega de um sistema de objectos significantes, constitui-se como uma operação, ou seja como metalinguagem.
Temos assim um conjunto complexo em que a linguagem, no seu nível denotado, é metalinguagem, mas em que essa metalinguagem fica presa a um processo de conotação.
Uma metalinguagem poderá ainda transformar-se na linguagem-objecto de uma nova metalinguagem.
“
Fronteiras da Semiótica ” Adriano Duarte Rodrigues
O primeiro texto que tivemos de analisar começa por nos dar uma visão universalista de semiótica, tendo como limites o mundo em si mesmo, porque o seu objecto é global. Outra visão diz-nos que a semiótica tem um campo empírico mais limitado, sendo que este se divide em três categorias: infra-semiótico (limites de experiência e comportamentos instintivos); supra-semiótico (ideologias e visões do mundo) e semiótico.
O limite inferior é preconizado pelo sinal, conceito ligeiramente diferente do signo, diferença que explicaremos mais à frente. É instintivo no homem, como nos outros animais, a reposta mecânica e pré-determinada aquando a recepção de certos estímulos. Este modelo de estímulo/resposta foi aplicado a algumas invenções mecânicas para facilitar o seu funcionamento. Umberto Eco diz que neste modelo não é preciso que se perceba a semântica da mensagem, mas sim que o estímulo tenha o efeito pretendido. Pressupõe que a fonte transmita um sinal, por um canal, recebido por um mecanismo que converte esse sinal em mensagem para um destinatário. É a função pragmática da mensagem que mais interessa aqui. Um sinal só é sinal quando 1) uma fonte mecânica manda um estímulo pertinente, 2) o destinatário é também mecânico e responde de uma maneira única ao estímulo, 3) o emissor e o receptor têm o mesmo código, 4) não há discussão sobre o código nem por um nem por outro. Este conceito difere de signo porque um sigo tem 1) uma fonte humana que assume a função de emissor, 2) um receptor humano que assume a função de destinatário, 3) uma pluralidade de códigos que podem não ser totalmente comuns ao emissor e ao receptor, 4) a possibilidade de discussão do código. Signo e sinal não são totalmente distintos mas um centra-se mais na questão semântica e outro na função pragmática.
Ao limite superior da semiótica pertence a ideologia mítica, a concepção do mundo. É o domínio das ideologias, um domínio obscuro. É a significação na sua vertente mais abstracta.
Podemos dizer então que enquanto o domínio infra-semiótico se ocupa da matéria de expressão, o domínio supra-semiótico ocupa-se da matéria do conteúdo. A semiótica é a junção da forma circunscrita da expressão e do conteúdo. O campo semiótico envolve o estudo das componentes expressivas ou significantes das manifestações culturais, ou seja, um objecto (carro) não é só a função que assegura (locomoção), mas também significa, por exemplo, um estatuto social (Porche Renault 5). Apesar de termos analisado estes conceitos em separado, temos de perceber que eles trabalham todos juntos, porque, como Roland Barthes disse, quando somos inseridos numa sociedade, é inevitável que, nos objectos, a função semântica e a função pragmática se misturem.
“Referência, Manifestação e Significação”
Origem da semiótica é tão antiga como o homem. No entanto, a sistematização desta ciência, só veio depois. A relação entre expressão, conteúdo e cultura foi percebida pela primeira vez no momento em que se fez o primeiro abecedário, porque foi necessária a abstracção do objecto para se inventar um significante, não baseado na semântica mas sim num código organizado. Acrescentámos assim ao nosso pensamento mágico primitivo a racionalidade, quando tivemos de nos abstrair dos suportes reais para mencionar um objecto, usando em vez deles, um significante
A perspectiva semiótica foi também importante na medida em que associa signos e objectos com a sociedade, sendo esta última indispensável à compreensão dos mesmos. Por exemplo, Vénus foi durante muito tempo chamada de “estrela da manhã”. Este signo está errado do ponto de vista científico, mas esta designação fundamenta-se com referência culturais, neste caso históricas.
Os signos têm a capacidade, segundo os Estóicos, de 1) referenciarem uma coisa e o seu estado; 2) manifestarem a maneira como nos relacionamos com essa coisa (sentimento: paixão; indiferença); 3) significarem um objecto através de uma construção de conceitos gerais (exemplo: “mesa” pode ter várias concepções, mas se não especificada, mesa é um objecto de três ou mais pernas, com um tampo)
A Tradição da Semiótica Europeia Contemporânea
A proposta semiótica Saussuriana parte da reflexão acerca da linguagem. Saussure diz que a língua tem de ser estudada por si mesma – Linguística.
Primeiramente distingue parole de langue, sendo que esta última é mais importante porque é constante e obrigatória para todos aqueles que integram a comunidade falante. A langue tem como características 1) a obrigatoriedade; 2) a arbitrariedade (nada a fundamenta na realidade a não ser uma convenção colectiva); 3) a linearidade /desenvolvimento no tempo) e é de natureza relacional. Essas relações distinguem-se em relações paradigmáticas entre as entidades manifestadas e entidades ausentes que as podem substituir, e relações sintagmáticas entre as entidades manifestadas e a estrutura entre elas.
Saussure considera que a língua é um sistema de signos, e assim sendo o signo é composto por significante e significado. Nada os liga a não ser a convenção colectiva.
As maiores críticas a Saussure são 1) a relação de significante e significado não é arbitrária, mas sim obrigatória, porque é necessária a ligação da realidade à sua forma de expressão; 2) a língua não é linear mas sim multi-dimensional e, sendo assim, será que signo engloba esta característica?; 3) a língua, apesar de uma convenção tradicional, sofre várias modificações pelos falantes.
Roland Barthes
Significado e Significante:
Partindo da definição de Saussure, Roland Barthes faz uma apreciação das várias terminologias que vários autores atribuem a este conceito, sendo que a distinção semântica entre eles é extremamente sensível.
Enquanto que Saussure admite na definição de signo o factor significado, outros autores excluem totalmente a semântica da linguística, suscitando alguma controvérsia até mesmo para aqueles que admitem significado nesta disciplina. Para este autor, significado representa não o objecto mas sim a imagem psíquica que temos dele, enquanto que significante é um mediador entre esse objecto e a imagem que projectámos e um suporte material dessa referência. Esta controvérsia fundamenta-se no facto de não se ter encontrado uma definição unívoca de semântica dentro de linguística.
Seguidamente Roland Barthes define significação como um processo de união entre significante e significado cujo produto é o signo, sendo que o vínculo último entre este dois conceitos é a sociedade.
Sintagma e sistema:
As relações que unem os termos linguísticos podem desenvolver-se em dois planos: 1) sintagmas – combinação de signos e 2) sistemas – uma série de campos associativos determinados por afinidades. Um exemplo prático desta distinção pode ser: enquanto que para sistema vestuário é um grupo de peças ou detalhes que não podemos usar ao mesmo tempo, no mesmo ponto do corpo e cuja variação corresponde a uma mudança do sentido de vestuário, para sintagma o vestuário é uma justaposição no mesmo traje de elementos diferentes: saia, blusa e casaco. Podemos então concluir que sintagma é a parcela e que sistema é o conjunto, composto pelos sintagmas.
Apesar de serem conceitos diferentes é normalmente do cruzamento destes dois termos que surgem os fenómenos criativos, porque juntam estética e defecções do sistema semântico. Temos como exemplo maior deste cruzamento a rima e retórica, sendo que estas duas situam-se na fronteira destes paradigmas.
Denotação e conotação:
Num processo de significação temos sempre dois planos: o plano da expressão e o plano do conteúdo, sendo que a relação entre estes coincide com a significação. Este sistema pode por sua vez ser englobado num segundo sistema que lhe é portanto extensivo.
O primeiro sistema que referimos pode ser então chamado de denotação: significação óbvia; do senso comum.
O segundo sistema, no qual o primeiro sistema se insere, pode ser chamado de conotação, sendo um sistema mais complexo.
Apesar dos fenómenos de conotação ainda não terem sido estudados sistematicamente, não há dúvida que o futuro pertence a este plano, porque a sociedade tem tendência a se desenvolver a partir do primeiro sistema (fornecido pela linguagem humana) para um segundo sistema.
A denotação é imbuída na conotação sendo que pode ocupar o papel de significante ou de significado dentro do plano conotativo.
Trabalho realizado por:
Rodrigo Atalaia – 130302027
Sara Soares - 130302011
Texto de Beck, Bennet e Wall
Este texto de Andrew Beck, Peter Bennett e Peter Wall é um excerto de um estudo feito sobre a comunicação e sobre vários aspectos que podemos encontrar num qualquer texto dos media. Introduz vários conceitos, alguns deles novos, outros que já conhecíamos – provenientes das duas escolas que mais contribuíram no estudo da comunicação – a escola Semiótica e a escola Processual.
De leitura preferencial
Vamos começar por dizer que um texto de comunicação pretende sempre representar algo. Para que essa representação seja mais eficaz, os autores recorrem frequentemente a estereótipos ou a ideias preconcebidas acerca de determinados grupos sociais ou de assuntos para que os leitores mais facilmente se identifiquem com a mensagem presente no texto.
Para George Gerbner, existem alguns aspectos que nos permitem identificar o significado potencial de qualquer tipo de texto dos média : ao tomarmos consciência do texto, devemos procurar entender as diversas situações que nele estão presentes para que as possamos ordenar em termos de prioridade e de valor numa tentativa de perceber que tipo de relações se estabelecem entre cada uma dessas situações e o seu significado enquanto texto de comunicação. No entanto, este tipo de análise está sempre dependente de sabermos ou não o género e as convenções ás quais o texto obedece na sua criação.
Num texto de comunicação está sempre presente um discurso, normalmente referenciado como discurso dominante. No entanto, e devido ás características inerentes a qualquer texto, podemos considerar alguns aspectos, como o facto de encontrarmos textos mais “abertos” a diferentes interpretações em oposição a outros em que dificilmente se consegue “fugir” á interpretação ou á leitura que o autor deseja que seja a nossa – textos “fechados”. A esta leitura chama-se preferencial e é aquela que podemos encontrar na grande parte dos textos dos média de massas. Outro aspecto foi apresentado por Stuart Hall no seu livro “ Culture, media, language ” , publicado em 1980 no qual se refere a três tipos essenciais de leitura que se podem fazer nos textos dos média. Acentuando o papel desempenhado pelo contexto social do leitor em qualquer uma dessas leituras, Hall distingue então a leitura dominante na qual encontramos óbvias ligações com os valores e ideologia da sociedade da leitura negociada em que o discurso dominante acaba por se modificar consoante as circunstâncias pessoais do leitor. Uma outra, a leitura oposta, ou em oposição, para além de retirar significados alternativos e opostos do texto, contesta o discurso dominante.Se tentarmos analisar um texto dos média, facilmente nos apercebemos da negociação que estamos a fazer entre estas três leituras de maneira a produzirmos uma resposta que nos faça sentido, não só enquanto indivíduos mas , neste caso particular, enquanto estudantes de comunicação social. Só desta maneira poderemos identificar certos tipos de manipulação que os média fazem acerca de determinados assuntos, dando muitas vezes origem a situações de pânico moral. É importante entender que toda a comunicação é potencialmente polissémica e portanto aberta a várias interpretações.
Desconstrução
As duas escolas mais importantes que estudam a comunicação são exactamente a processual e a semiótica. Elas constituem duas aproximações diferentes ás várias questões que se levantam sobre a comunicação e, por isso mesmo, oferecem-nos algumas ferramentas para que possamos ir mais fundo na análise de textos.
Para a escola processual, a comunicação é a transmissão de mensagens, processo pelo qual um indivíduo afecta outro(s). É desta maneira que a escola processual vê a comunicação, focando os seus interesses em questões como a eficiência, a exactidão, a fidelidade das mensagens – questões relacionadas com o modo como o emissor e receptor codificam e descodificam as mensagens. Uma comunicação bem sucedida mede-se, no entender desta escola, pela quantidade de “sinal entregue” , ou seja, de mensagens que chegam ao seu destino.
A semiótica vê a comunicação como o gerar e o partilhar de significados . Ao estudar a comunicação, procura conhecer o contexto e a cultura onde essa comunicação ocorre. Analisa com grande interesse a maneira como interagem pessoas e mensagens e, por isso mesmo, não vê o erro de interpretação como falha na comunicação.
Estas duas escolas não se anulam uma á outra – a grande diferença é que a escola processual dá mais importância ao emissor e ás suas intenções enquanto que para a escola semiótica, o receptor tem o papel mais importante na comunicação.
Na abordagem semiótica, a negociação que acontece entre um texto e o seu leitor é que dá significado a esse mesmo texto – ele não tem significado por si mesmo. A semiótica tenta decompor um texto em partes, de maneira a identificar os códigos – sistemas de organização da comunicação - que o constituem. Os códigos são no fundo as convenções existentes numa determinada linguagem que permitem que a comunicação faça sentido.
É, para John Fiske, importante fazer a distinção entre dois tipos de códigos: os códigos de representação e de apresentação. Se através dos códigos de apresentação podemos ficar a saber algo mais sobre o contexto e o emissor de um qualquer texto, pelos códigos de representação não retiramos qualquer espécie de informação uma vez que estes permitem que uma determinada mensagem possa ser criada e exista, independente de qualquer informação adicional.
Falta dizer que os códigos são constituídos por signos, sendo estes praticamente tudo o que possa gerar significado.
As relações que podemos encontrar entre signos foram definidas por Ferdinand de Saussure: se diz respeito a um sintagma – a uma combinação única de signos – chama-se relação sintagmática; se, por outro lado, for o tipo de relação a que Saussure chamou de paradigmática, referimo-nos á escolha de um signo em detrimento de outros que, no seu conjunto formam um paradigma.
Imagens e palavras
A maior parte dos anúncios que encontramos nas revistas e jornais, além de uma imagem têm sempre um pequeno texto que ajuda a uma melhor interpretação, ou que nos impele para uma determinada leitura do anúncio. Esse texto, que pode tomar, por exemplo, a forma de um slogan ou de um título, fixa o “verdadeiro” significado do anúncio. É o que Roland Barthes designou por Anchorage. No fundo, esta fixação serve para que o leitor, ou, no caso de um anúncio a um qualquer produto, o consumidor, não se distraia dos objectivos a que o texto se propõe, ou seja, que faça a leitura preferencial do anúncio (e que acabe por se convencer que o Red Bull realmente lhe dá asas).
Agora, se focarmos a nossa atenção apenas na imagem, não só nos apercebemo-nos das diversas interpretações que podemos fazer como encontramos diferentes tipos de interpretação - ordens de significação, segundo Barthes. A primeira ordem de significação é a denotação. No fundo, constituí-se como base da leitura uma vez que é a aplicação “natural” das convenções sociais sobre a correspondência entre signos e objectos específicos. Já a segunda ordem de significação depende do leitor ou de um grupo de leitores e da relação que este ou estes mantêm com determinado signo. Designa-se por conotação. A terceira ordem é a ideologia. Esta diz respeito a algo mais profundo e entranhado numa determinada sociedade. Para Fiske e Hartley, a visão do mundo que uma sociedade possui está dependente da organização e do controlo que a mesma exerce sobre a forma como são criados significados – está dependente da ideologia que domina essa sociedade.
Voltando um pouco atrás, mais precisamente ao conceito de anchorage, é importante perceber que algumas imagens ou textos necessitam menos de uma “ancôra” do que outros. São novamente os conceitos de texto aberto e fechado que estão aqui em causa, mas não só. Cada uma das escolas, processual e semiótica, contribuí com um novo conceito para que possamos entender melhor esta questão.
O conceito de redundância surge pela mão de Shannon e Weaver, na Teoria Matemática da Comunicação. Uma mensagem repetida constantemente, que não nos traz nada de novo diz-se redundante. Previsível. E reconhecemos essa previsibilidade se, por exemplo, focarmos a nossa atenção num determinado género de publicações, ou de anúncios. Seguem as mesmas convenções, os mesmos parâmetros de todos os outros anúncios do mesmo género e por isso mesmo, são facilmente compreendidos.
Da semiótica, surge o conceito de motivação, que diz respeito á relação entre um signo e aquilo que o mesmo representa. Diz-se que um signo é motivado quando a sua aparência enquanto signo se assemelha com a aparência daquilo que está a representar. Quanto mais motivado, mais convencional esse signo é e por isso mais facilmente reconhecido.
A utilização de mensagens redundantes e de signos altamente motivados acontece porque estamos a falar de comunicação para massas sendo por isso de extrema importância assegurar que senão todos, pelo menos grande parte dos indivíduos percebe o que se está a tentar transmitir.
Ainda em relação á escola semiótica, Charles Peirce propôs uma outra forma de encarar os signos. Através da sua análise, encontramos três categorias de signos: o ícone, o índex e o símbolo. O ícone é um signo motivado, em que o grau de semelhança com o seu significado é muito elevado. O índex é para Peirce um signo que comunica com o significado por associação de ideias. Por último, o símbolo, utiliza-se para signos cuja relação entre signo e significado surge apenas por um acordo ou por convenção social.
Processando informação
Se a grande parte dos conceitos até aqui expostos são produto dos estudos da semiótica, falta-nos agora falar sobre o contributo da escola processual. E começamos por George Gerbner: este autor criou um novo modelo de comunicação, ou melhor, procedeu a algumas alterações do modelo de Lasswell de comunicação. A alteração situa-se ao nível do emissor onde Gerbner distingue entre o acto de percepcionar o mundo e o acto de comunicar essa percepção a outro individuo. Gerbner introduz assim uma separação entre a dimensão perceptiva e a dimensão comunicativa. Para o autor, o emissor escolhe de entre um vasto número de estímulos aquele que mais significado tem para si – para que depois o transmita a um receptor da maneira mais apropriada para ambos ou, pelo menos, para um dos intervenientes no processo. O papel deste emissor é não só o de transmitir mas também o de seleccionar a informação e por isso mesmo podemos afirmar que ele é um Gatekeeper, ou seja, alguém que controla a selecção da informação que será transmitida por um determinado canal. Há que dizer que todo o processo de comunicação atravessa uma vasta cadeia de gatekeepers com diferentes graus de importância e que todos os indivíduos presentes nesse processo são elementos dessa cadeia uma vez que todos têm a oportunidade de seleccionar que informação vai ser transmitida ao próximo.
A guerra das audiências
Diversos são os factores que contribuem para a construção de uma audiência. Os emissores devido ao “nome” que possuem – o estatuto - e á autoridade que detém sobre determinada matéria são sem margem para dúvidas uma das grandes razões para que uma qualquer mensagem consiga obter maior ou menor audiência. Mas a mensagem em si é também muito importante – e a forma como esta é comunicada ainda o é mais. É uma discussão entre a forma e o conteúdo e como determinado conteúdo é mais eficaz se transmitido sobre uma forma específica. O trabalho do comunicador será encontrar a melhor forma de transmitir a mensagem, utilizando o registo que mais se relacionar quer com a mensagem quer com a audiência, mediante o canal de que dispõe para o fazer. Hoje por hoje, devido á crescente interacção nos meios de comunicação, está disponível para o emissor uma informação muito mais precisa sobre a eficiência da sua mensagem. É o conceito de Feedback. Este, não só proporciona essa informação ao emissor como também “obriga” o receptor a uma resposta, a que não se limite a ser apenas e só o receptor e que participe no processo.
Reunião de Professores
O último dos autores analisados, Roman Jakobson, faz no fundo uma interligação entre as duas perspectivas, a semiótica e a processual, através de um modelo que reúne os contributos das duas escolas. Jakobson atribui a cada elemento da comunicação uma função. Assim, o emissor tem uma funcão emotiva através da qual é comunicado o seu estatuto, atitudes e as suas emoções. Já ao receptor cabe-lhe a função conativa que no fundo o chama para o processo de comunicação, força-o a participar e a dar uma resposta para a mensagem que acabou de receber. Ao contexto, mensagem, contacto e código são atribuídas as funções de referencial, poética, fática e metalinguística. À função fática exige-se que abra e mantenha abertos os canais pelos quais se comunica enquanto a função de referência deve relacionar o texto com a realidade. As outras duas funções comunicam quer a forma como o texto foi criado quer os códigos mais importantes que foram utilizados na sua criação. Estas funções apesar de coexistirem em qualquer acto de comunicação, têm maior ou menor importância dependendo das características desse mesmo acto de comunicação.
Deadline
Teremos então de afirmar que um texto como este que analisámos, apesar de não ser facilmente compreendido dada a enorme quantidade de conceitos em jogo, é de extrema importância para alguém que tem como objectivos a comunicação ou o seu estudo. Para todos os outros, não será menos importante a descoberta dos diversos métodos que a comunicação de massas actualmente utiliza para nos transmitir as suas mensagens e o papel que os indivíduos, enquanto receptores, podem ter no processo.
Gonçalo Caldas nº 130399146
Marta Frade nº 130399119
Maria João Santos Silva nº 130393032
Sábado, Dezembro 13, 2003
“O gatekeeper: uma análise de caso na selecção de notícias” – David Manning White
O cientista social Kurt Lewin defendia que a notícia depende de gates (determinadas áreas dentro dos canais de comunicação), que são regidos por um grupo ou por regras imparciais. É nesses gates que as notícias passam ou são rejeitadas, e o seu funcionamento está relacionado apenas com as decisões dos chamados gatekeepers. Este texto relata um estudo realizado com o objectivo de descobrir como se faz o controlo destes gates, ou seja, as razões por detrás das escolhas das notícias que chegam aos leitores.
Primeiramente é-nos apresentado um exemplo para que possamos compreender melhor a dimensão da importância destas escolhas, no qual se conclui que todos os jornalistas, sejam de pequenas ou grandes agências noticiosas, são o 1º gate no processo de comunicação, ao julgarem o facto da estória ser ou não importante. Para além disto, as reportagens podem depois ter tratamentos diferentes, pois os relatos virão de diferentes pessoas com diferentes experiências, atitudes e expectativas. Após a transmissão da notícia dos repórteres para chefes de secção e redactores, na qual se dão contínuas escolhas e rejeições, chega-se ao último gatekeeper: o redactor telegráfico do jornal. Este faz a selecção das notícias para a primeira página e desenvolve-as nas páginas interiores.
O estudo foi realizado com a ajuda de um gatekeeper que era na altura editor telegráfico de um jornal e que se defrontava com um trabalho muito complicado, devido ao número de notícias a que estava limitado a publicar, por falta de espaço. Ao longo de uma semana justificou todas as suas rejeições ao sociólogo: concluiu-se que apenas um décimo das notícias recebidas foram utilizadas e que todo este processo é extremamente subjectivo pois está dependente de juízos de valor baseados em experiências, expectativas e atitudes do gatekeeper. Conseguem-se distinguir duas grandes categorias nos seus critérios: o primeiro é a rejeição devido à pouca importância atribuída ao acontecimento; o segundo é a selecção a partir dos muitos relatos da mesma notícia. Assim, encontravam-se anotações como «palha», «propaganda» ou «sem espaço». As notícias de interesse humano foram as mais usadas, seguidas das notícias políticas. No entanto, torna-se aqui clara uma preferência pessoal, pois estas últimas estão apenas em quinto lugar relativamente às cópias telegráficas recebidas.
Entretanto, vão surgindo novas perguntas: o que se pode concluir acerca dos tipos de notícia que o gatekeeper seleccionou, preterindo outros da mesma categoria? Quais os critérios no que respeita o estilo de escrita? Relativamente à primeira questão, o sensacionalismo, por exemplo, é sem dúvida evitado; quanto à segunda questão, parece haver uma certa apreensão com notícias que incluem muitas estatísticas.
Surge mais tarde a dúvida se a categoria da notícia entra na escolha, ou seja, se o gatekeeper tenta escolher um certo número de notícias de determinadas categorias. A resposta que parece fazer mais sentido é que se essas escolhem existem, não são conscientes. Surge ainda a seguinte questão: será possível não se destacar uma notícia à qual uma outra estação noticiosa está a dar uma grande importância? Embora tudo dependa da opinião do gatekeeper, os seus gostos têm de se moldar, se necessário, aos interesses de um público que tem de ficar satisfeito. Foi finalmente realizada uma pequena entrevista composta por quatro perguntas, na qual o editor telegráfico afirmou que a categoria da notícia entrava sem dúvida no processo de escolha, procurando a variedade embora não mantivesse um equilíbrio rígido. Mostrou também preferência por estórias de interesse humano e adequadas para servir as necessidades do público e definiu os seus leitores como pessoas de inteligência média, interesses diversos e com o direito à informação do que se passa no mundo.
Por fim, o gatekeeper afirmou que os únicos critérios relativos ao estilo de escrita que usa conscientemente estão relacionados com a clareza, brevidade, pontos de vista e, sem dúvida, com o tamanho. Após analisada a entrevista, forma-se a ideia de que o editor telegráfico acaba por fazer com que o público apenas aceite como facto os acontecimentos que o jornalista considera verdadeiros. Pode-se concluir então que este gatekeeper desempenha um papel de enorme importância como gate final e foi possível verificar a subjectividade por detrás das suas selecções das notícias.
“Controlo social na redacção. Uma análise funcional” – Warren Breed
O dono do jornal (ou publisher) é quem decide a orientação política do mesmo. Mas isto não é automático, o publisher não dá ordens por três razões: a primeira é a existência de normas de ética jornalística. A segunda é o facto dos subordinados (como os repórteres, por exemplo) tenderem a ter atitudes mais “liberais” do que o publisher e poderem invocar as normas para justificar artigos contra a política. A terceira é o tabu ético que impede o publisher de obrigar subordinados a seguirem a sua orientação. Os jornalistas são divididos em duas categorias sociais: os “executivos” (constituídos pelo publisher e os editores) e os staffers (que são os repórteres e jornalistas). A política editorial é determinada pelos executivos, mas quem faz a notícia são os staffers. É aí que se cria o conflito entre os executivos e os staffers para a redacção final do artigo, em relação à política do artigo.
O autor efectuou pesquisas entre cerca de 120 jornalistas para descobrir como é que uma orientação política de um jornal é mantida apesar dos conflitos. Quando os novos jornalistas começam o trabalho não lhes é dita qual a política do jornal. Vão ter que descobrir sozinhos, aos poucos. A maioria dos jornalistas desta pesquisa disseram que aprenderam por “osmose”. Ou seja, liam todos os dias o jornal para o qual escreviam e começavam a aperceber-se da orientação política (no sentido empresarial) do jornal. Algumas das formas através das quais os jornalistas descobrem a orientação do jornal são as seguintes: as acções editoriais (a orientação que os editores dão aos novos jornalistas sobre o que publicar), as conferências noticiosas, os órgãos internos (os publishers escrevem nas revistas dos jornais e assim os staffers entendem as suas orientações políticas), a observação do executivo durante encontros com outros dirigentes e a emissão de opinião de um executivo ouvido por um staffer.
Existem seis razões específicas que fazem com que o staffer não queira ir contra a orientação do jornal, conformando-se com a mesma. A primeira é a autoridade institucional e sanções, que provoca o medo de ser despedido ou mesmo de ser transferido para outra secção que não é a sua. A segunda é os sentimentos de obrigação e de estima para com os superiores, ou seja, o respeito pelos superiores. A terceira é as aspirações de mobilidade, ou seja, o facto do jornalista querer subir na carreira faz com que tente agradar e não contrarie os executivos. A quarta é a ausência de grupos de lealdade em conflito, ou seja cada jornalista está sozinho no que diz respeito a ir contra a orientação editorial. A quinta é o prazer da actividade, ou seja, os jornalistas gostam do seu trabalho e sentem-se bem no ambiente e portanto não querem criar conflitos. Por último, a sexta é o facto da notícia se tornar um “valor”; a notícia em si já obriga ao gasto de bastante energia, fazendo os jornalistas esquecerem os possíveis confrontos.
Além de tudo isto, o jornalista sente-se parte do jornal e tende a partilhar as suas opiniões. Na pesquisa, o autor verificou que das seis razões, cinco são constantes (ocorrem em todos os jornais). A única variável é a segunda – a dos sentimentos de obrigação e de estima para com os superiores. Esta segunda razão acontece mais frequentemente nos jornais maiores. Era aliás nos jornais menos importantes que os jornalistas estavam mais insatisfeitos e descontentes e tendiam a procurar outros empregos.
Mas apesar de tudo isto, nem sempre a orientação do jornal é definida apenas pelos executivos. Por vezes, o staffer consegue publicar artigos que vão contra a política do jornal. Assim, existem cinco factores que ajudam o repórter a publicar estes artigos. O primeiro é as normas da política editorial, que nem sempre são muito claras e bem estruturadas. O segundo é os executivos poderem às vezes não saber todos os detalhes da notícia. O terceiro é a táctica da “prova forjada” (por exemplo, fazer publicar a notícia noutro jornal e assim obrigar também o seu jornal a publicar a notícia). O quarto diz que existem quatro tipos de notícia – os primeiros dois não dão para o repórter publicar o que quer: a reportagem política (ex: construção de hospital ou a queda de um viaduto) e a reportagem atribuída (por encomenda do executivo ao staffer). Os últimos dois facilitam a publicação daquilo que o repórter quer: a beat story (cobertura de uma notícia mais “ágil”, como por exemplo uma discussão parlamentar) e a reportagem iniciada pelo staffer. Por último, o quinto factor está relacionado com os staffers com um estatuto de “estrela” que podem facilmente transgredir a política editorial.
Depois de analisarmos estes dois textos parece-nos evidente relacionar o seguinte aspecto: a política de um jornal acaba também por ser mais um dos importantes factores nos critérios dos gatekeepers.
Trabalho realizado por:
Joana Canavilhas, 130302044, e Beatriz Mourão, 130302055
INTRODUCAO A KLAPPER E LASSWELL
INTRODUÇÂO
Este trabalho tem como finalidade fazer um estudo das teorias de dois conhecidos autores e investigadores nas áreas das Ciências Sociais : Harold Laswell e Joseph Klapper. Ambos estão no âmbito das Teorias da Comunicação no contexto dos efeitos ilimitados e limitados.
Laswell foi um dos autores que desenvolveu a teoria dos efeitos ilimitados, esta teoria diz que o impacto dos meios de comunicação era feito de modo total e irreversível, partindo do pressuposto que o emissor é todo poderoso e exerce um poder total e directo sobre o receptor. A esta teoria Laswell deu o nome de “Teoria da agulha Hipodérmica”, ou seja, os media actuavam como uma agulha, injectando a mensagem ás massas que respondiam ao estímulo cujo efeito era actuar de forma directa, persuasiva , manipuladora. Segundo Laswell a massa obedecia sem pensar ao estímulo. Laswell ficou conhecido pelo seu modelo de comunicação : quem? diz o quê? a quem? por que canal e com que efeito? E foi ele que sistematizou esta teoria dos efeitos ilimitados em que o objectivo era a manipulação do receptor pelo emissor.
No entanto esta teoria não foi comprovada cientificamente e Laswell fez uma espécie de reformulação da teoria dos efeitos ilimitados e transformou-a em teoria de efeito limitado. Um dos principais autores que contribuiu para o desenvolvimento dos efeitos limitados foi Joseph Klapper que fundamentou esta teoria com a sua investigação, concluindo que a influência não era directa e total, pelo que passou acreditar-se que os media exerciam uma influência mínima e que a mensagem que sai do emissor não chega de forma directa ao receptor, o efeito é condicionado pelos lideres de opinião que filtram a mensagem, existe um fluxo de comunicação a dois níveis que pressupoê que uma mensagem não chega ao receptor através de um mediador e que os efeitos dependem do meio de comunicação e não tanto do conteúdo da mensagem, pois a mensagem é filtrada por um mediador.
Mais à frente fazemos a análise de dois textos e também um resumo de cada um deles tentando conservar as linha principais, conceitos e ideias proeminentes.
Realizámos também uma conclusão em que referimos as linhas divergentes e estabelecemos as evidentes diferenças existentes em ambos os textos.
KLAPPER - OS EFEITOS DA COMUNICAÇÃO DA MASSA
Joseph Thomas Klapper propôs-se estudar os efeitos de comunicação de massa. Este autor manifestou uma consciência critica e a percepção de que a teoria dos efeitos ilimitados não é completa e que falhou.
O autor faz um balanço pessimista mas com perspectiva de resolução uma vez que considera que existem questões que a teoria dos efeitos ilimitados não consegue explicar como por exemplo : A violência dos media gera delinquência? Os media elevam ou diminuem o gosto do público? Os media geram passividade do público? O autor constata a ineficácia dos efeitos ilimitados e sustenta que os media não têm um efeito tão poderoso quanto se julgava, exercem uma influência importante mas não total , que os gostos existentes das pessoas determinam o modo como utilizam os media e que estes exercem um efeito de reforço na opinião pública.
Klapper salienta que os media contribuem para a mudança se forem apoiados pela informação produzida pelos grupos primários, secundários e de referência, os media sempre que associados a estes grupos produzem mudanças de gosto, atitude, ideias, formação de opinião pública, podem reforçar as convicções, estimulam os gostos pré definidos mas não os alteram.
O autor avança com uma proposta que assenta em dois pontos : uma nova orientação do estudo dos efeitos da comunicação e o aparecimento de generalizações que se referem ao reforço e à mudança e que dão conta da importância do novo rumo e que eliminam o pessimismo das teorias anteriores, os media não determinam os gostos, mas são usados em conformidade com os gostos já determinados, são como agentes que contribuem para a mudança de gosto, assim, a comunicação de massa não é causa necessária suficiente dos efeitos, mas funciona através de um conjunto de factores mediadores tais como personalidade, normas culturais, predisposições e gostos particulares.
Em conclusão, Klapper sugere que os media não determinam os gostos, que o conhecimento chega ás pessoas de acordo com a sua receptividade e nível de conhecimentos, no entanto estão associados a mudanças de gosto, desempenham um papel na elevação ou reconversão dos gostos das pessoas. Actuam como educadores, implementando tendências, incitando, estimulando os interesses já existente.
Este texto tem uma visão mais ampla e actual dos efeitos dos media no contexto da época em que foi escrito (1957)
Quinta-feira, Outubro 30, 2003
Textos de: 1) Herbert Blumer, e 2) Lazarsfeld e Merton
Os dois textos que analisamos têm uma relação de complementariedade na questão do estudo da comunicação de massa. O primeiro texto “A massa, o público e a opinião pública” de Herbert Blumer, fornece definições destes três conceitos e introduz ainda o conceito de propaganda, que servirão de base para a compreensão da comunicação de massa; cujos efeitos sobre a sociedade são abordados por Paul F. Lazarsfeld e Robert K. Merton no segundo texto “ Comunicação de massa, gosto popular e acção social organizada”.
Herbert Blumer começa por definir e desenvolver o conceito de massa. O termo massa indica um grupo colectivo elementar e espontâneo, em que se destacam quatro características fundamentais: os seus elementos são originários de diversas profissões ou categorias sociais; é composto por indivíduos anónimos; o nivel de interacção e de troca de experiência é baixo entre os seus elementos, ao contrário da multidão em que os seus participantes se misturam; e finalmente, a sua organização é frágil pois o grupo não age de forma integrada e com a unidade que caracteriza a multidão. O objecto de interesse da massa situa-se fora do âmbito das diversas culturas locais dos seus elementos, atraindo-os para um universo externo às suas esferas de vida.
A massa não funciona como uma sociedade ou uma comunidade, pois não possui organização social, regras ou expectativas pré-estabelecidas. A forma do seu comportamento é configurada por linhas individuais de acção e não por uma acção combinada, na medida em que cada elemento faz uso da sua auto-consciência perante o objecto de interesse. No entanto, a massa não deixa de ser um grupo homogenio já que, por não possuir ordem interna, é espontâneo, inato e elementar, assemelhando-se à multidão. Deve-se embora referir que quando a massa se organiza em termos de um movimento, a sua naturaza global altera-se e esta adquire uma estrutura concreta, uma atitude grupal, e uma consciência de grupo, adoptando, apenas neste caso, uma natureza societária.
A moderna vida urbana e industrial afastou as pessoas das suas culturas e grupos locais, criando assim a necessidadede os individuos se ajustarem com base em escolhas pessoais. A convergência destas escolhas tornou a massa uma influência poderosa, chegando, em condições de excitação, a assemelhar-se à multidão. Numa tentativa de influenciar essas escolhas o apelo da propaganda de massa deve ser dirigido ao indivíduo anónimo de forma directa.
O público é, para Blumer, outro elemento de destaque no que diz respeito à noção de agrupamento elementar colectivo. O termo público refere-se a um grupo de pessoas que: estão envolvidas numa dada questão, encontram-se divididas nas suas posições diante dessa questão, e discutem a respeito do problema na procura de uma opinião colectiva. Estes elementos deliniam a marca do público. Este não funciona como um grupo pré-estabelecido, existe sim como resposta natural e espontânea perante uma situação de tomada de decisão. Tal como a multidão e a massa, é destituído de qualquer padrão cultural ou tradição que limitem essa decisão, afastando-se também de uma natureza societária. A dimensão distintiva do Público é o desacordo e a discussão quanto ao que se quer fazer, diferencia-se da multidão por se espelhar em relações de conflito, a discussão, enquanto que a última estabelece uma relação unânime por eliminação de qualquer discordância. Partilha com a massa a existência de auto-consciência e capacidade crítica individual, mas não partilha do conceito de convergência de ideias. Pelo contrário, apoia-se na existência de posições opostas que são discutidas com base nos factos e na argumentação racional. Embora a sua característica fundamental seja o facto de se encontrar dividido, o público vai alcançar a sua unidade na procura de uma decisão colectiva. Esta decisão é factor integrante da opinião pública, é uma opinião combinada, é a tendência central fixada que resulta do confronto entre grupos de interesse opostos, e não necessariamente a opinião da maioria. A opinião pública nasce da discussão racional, e para tal o público necessita de um “universo de discurso” , aliado de uma atitude receptiva e de compromisso. Estabelecido esse universo, o público compõe-se de grupos de interesse, que tentam progressivamente moldar as opiniões das pessoas mais desinteressadas. Assim compreende-se a qualidade variàvel da opinião pública e a utilização de meios de influência, como a propaganda. Estes meios estão dependentes da possibilidade de discussão livre, e quando não existe essa possibilidade ocorre uma interferência na discussão pública efectiva. Vários sociólogos preocuparam-se em estudar a propaganda, como é o caso de Paul F. Lazarsfeld e Robert K. Merton.
Já esclarecidos os conceitos de massa, público e opinião pública, no segundo texto, “Comunicação de massa, gosto popular e acção social organizada”, estes dois autores vão analizar os meios de comunicação de massa e os seus efeitos na sociedade, sem podendo deixar de referir os efeitos sociais da propaganda.
Lazarsfeld e Merton fazem uma análise dos problemas levantados pelos meios de comunicação de massa. Começam por enunciar as suas três grandes preocupações: omnipresença e poder potencial desses meios, em que o controlo organizado substituíu o uso da força para recorrer à propaganda como técnica de manipulação de massa,; o facto que esses meios assumiram a tarefa de ajustar os públicos de massa ao status quo social e económico, levando ao deterioramento das faculdades críticas e a um inconformismo irreflectido; e a possível corrupção da cultura popular e do gosto estético, como consequência do aumento do tamanho do público. Os efeitos dos meios de comunicação na sociedade é tema de análise profunda neste texto. Este problema desdobra-se em três aspectos: o papel social dos meios de comunicação de massa, a estrutura da propriedade e operação e a propaganda com objectivos sociais.
Para uma fácil compreensão do papel social dos meios de comunicação de massa, os autores prosseguem a uma análise de três funções destes meios . A primeira, a função de atribuição de status, reflecte o prestígio e autoridade conferidos pelos meios de comunicação a questões públicas, pessoas, organizações e movimentos sociais. É a divulgação pública feita em jornais, rádio, revistas que vai atribuir ao indivíduo/grupo uma identidade e importância legítimas perante as massas anónimas. Um exemplo desta função é o tipo de propaganda que utiliza personalidades proeminentes para publicitar um produto e que confere status a ambos. Uma segunda função é a execução de normas sociais. Os meios de comunicação tendem a reinterar normas sociais ao dar a conhecer situações tidas como desvios em relação ao padrão moral público. Os autores destacam a afirmação de Malinowski que define que, no plano do comportamento, nenhuma acção social é encarada como desvio em relação a uma norma social se este desvio não for declarado publicamente. Por fim, surge a terceira consequência social, a disfunção narcotizante dos meios de comunicação. O facto de o conceito disfuncional apontar para a existência de amplas massas da população politicamente apáticas, não é de interesse da moderna sociedade complexa. O índividuo acaba por confundir conhecer os problemas da actualidade com fazer algo a seu respeito. Não há dúvidas que os meios de comunicação elevaram o nível de informação da população, mas, involuntáriamente, acabaram por criar um conhecimento passivo, em vez de uma participação activa do indivíduo na sociedade.
Os efeitos sociais dos meios de comunicação variam conforme o sistema de propriedade e de controle. São as grandes empresas que financiam a produção e distribuição dos meios de comunicação de massa, que são dirigidos pela motivação do lucro. Estes meios, economicamente comprometidos, acabam por contribuir para a manutenção do sistema económico-social vigente e mantêm-se numa posição de sujeição perante a estrutura social, não podendo empenhar-se num trabalho de transformação dessa estrutura. Ao delinearem a sua influência sobre o público segundo um balanço entre objectivos sociais e lucros económicos, podem omitir questões públicas cruciais, favorecendo assim o conformismo e restringindo a avaliação crítica da sociedade. O impacto dos meios de comunicação no gosto popular transformou o mercado de interesse nas artes. O que antes era restrito a uma elite, passou a ser acessível a uma ampla camada da sociedade, nasce, assim, o conceito de arte em massa . A melhoria da educação popular foi acompanhada de um declínio do gosto popular. De facto, o nível de instrução sofreu uma melhoria significativa, embora não forneça ainda, o conhecimento necessário para uma compreenção global. Circunstância que criou um hiato entra instrução e compreenção, as pessoas leêm mais e compreedem menos.
Por fim, Lazarsfeld e Merton procedem ao estudo da propaganda com objectivos sociais. Para esta propaganda tem de respeitar as seguintes condições: monopolização, canalização ao invés de mudança de valores básicos, e contacto pessoal suplementar. A propaganda assume um valor quase absoluto se não existir contrapropaganda. Nesse caso, dá-se uma monopolização dos valores, políticas ou imagens públicas difundidas pelos meios de comunicação, já que não existe uma oposição crítica que permita o equilíbrio. A monopolização deverá produzir efeitos visíveis sobre os públicos através de um processo de canalização de padrões de comportamento e de atitudes pré-existentes. Não procura incutir novas atitudes ou criar novos padrões de comportamento. Uma vez estabelecido um padrão geral, os meios de comunicação tentam canalizar o comportamento numa ou noutra direcção, mas não existem provas significativas de que tenham conseguido transformá-lo totalmente. A propaganda de massa pode actuar eficazmente se preencher a condição da suplementação através de contactos pessoais. Aqui, a persuação em massa valoriza o contacto pessoal em organizações locais como instrumento complementar dos meios de comunicação. A reciprocidade entre os meios de comunicação e os centros locais de contacto pessoal directo provou ser capaz de reforçar o conteudo da propaganda em massa.
Estas três condições são raramente preenchidas, no caso da propaganda em prol de objectivos sociais, podendo por vezes existir algumas limitações, por exemplo logísticas ou financeiras. Isto permite aos autores afirmar que estes meios não parecem dispor do grau de poder social a eles comummente atribuídos. Assim, a mera presença desses meios não afecta a sociedade de modo tão profundo como em geral se supõe.
Os dois textos seguem uma linha de continuidade em que o primeiro fornece os conceitos base que permitem compreender o segundo.
“Comunicação de massa, gosto popular e accção social organizada”
Lazarsfeld e Merton
Os meios de comunicação de massa e os seus efeitos na sociedade
Preocupação social com os meios de comunicação de massa:
Omnipresença e poder potencial desses meios
Tarefa de ajustar os públicos de massa ao status quo social e económico
Possível deterioração do gosto estético e da cultura popular
Funções sociais dos meios de comunicação de massa:
Atribuiçao de status
Execução de normas sociais
Disfunção narcotizante
Efeitos sociais dos meios de comunicação de massa:
A estrutura de propriedade e operação
Conformismo social
Impacto no gosto popular
Propaganda com objectivos sociais
Tem de respeitar as seguintes condições:
Monopolização
Canalização
Suplementação
A mera existência dos meios de comunicação de massa não afecta a sociedade de modo tão profundo
Massa
4 características especificas:
Participantes são oriundos de quaisquer profissões ou classes sociais
E um grupo composto por indivíduos anonimos
Pouca interacção ou troca de experiência
Organização frágil, não age de forma integrada
Comportamento da massa:
Objecto de interesse da massa situa-se fora do âmbito das culturas e grupos locais
Linhas de acção individual - autoconsciência
Convergência de escolhas pessoais
Propaganda de massa - o apelo deve ser dirigido ao individuo anonimo
Público
Grupo de pessoas:
Que estão envolvidas numa determinada questão
Encontram-se divididas em diferentes posições dessa questão
Discutem a respeito da questão na procura de uma opinião colectiva
Comportamento do Publico:
espontâneo - reage a uma questão
não tem sentimento grupal ou consciência de grupo
caracteriza-se por relações de conflito – as discussões
não há convergência de escolhas -
autoconsciência e fortalecimento das capacidades criticas individuais
discussão racional
O público alcança a sua unidade na procura de alcançar uma opinião colectiva.
Opinião Publica
não é uma opinião unânime, nem e necessariamente a opinião da maioria - mas sim uma opinião combinada
tendência central fixada através da discussão
Necessita de:
universo de discurso
atitude aberta e de compromisso
A questão que da origem ao publico resulta quase sempre do conflito entre grupos de interesse opostos
Vão tentar moldar as opiniões das pessoas mais desinteressadas
Qualidade variável da opinião publica
Vão utilizar meios de influencia como a propaganda
A qualidade da opinião publica vai depender da disponibilidade e flexibilidade das agencias de divulgação publica
Se algumas das posições em conflito não são divulgadas pelos meios de comunicação ocorre uma interferência na discussão publica efectiva.
Quarta-feira, Outubro 22, 2003
Como o professor já referiu, este blog destina-se a alojar, precisamente, os trabalhos realizados pelos alunos, a fim de facilitar o acesso de todos aos resumos que cada grupo efectou. Por isso, peço-vos que enviem aquilo que acharem relevante para outrolado@netcabo.pt de modo ao material poder ser posteriormente publicado. Só um aviso/pedido final: tabelas, imagens, bulets etc. não são formatos compatíveis. Convém mesmo que o documento contenha apenas texto. Quem estiver interessado - delegados de turma e não só - em reunir material e colocá-lo aqui on-line avise.
Grupo 2 - Textos de Rita Figueiras acerca de Espaço Público e Opinião Pública
Trabalho escrito
Este trabalho assenta na análise de dois artigos de Rita Figueiras denominados “Espaço Público e Opinião Pública: algumas perspectivas teóricas” e “O Espaço Opinião na Imprensa de referência portuguesa: 1980-1999”.
No primeiro artigo, a autora guia-se por duas linhas teóricas: A Filosofia Política e Ciências da Comunicação. A primeira corrente é essencialmente teórica, ligada à raiz histórica dos conceitos e centra-se na sua dimensão normativa; a segunda estuda a recepção dos media, a fim de conhecer os seus efeitos na produção de opinião dos indivíduos.
Na segunda metade do século XVII, o conceito de Opinião Pública (Espaço Público) torna-se um vocábulo corrente em ensaios e discursos políticos. Para autores como Locke ou Kant, Opinião Pública é o novo princípio de legitimidade política, baseada na livre discussão dos cidadãos esclarecidos, a partir da publicitação dos actos do governo. Segundo Habermas, no século XVIII, o espaço público liberal define-se como espaço de mediação entre Estado e sociedade civil. No centro desta mudança, estão a burguesia, os jornais e uma nova compreensão da realidade. Nos salões e cafés oitocentistas, a burguesia discute questões do seu interesse (literatura, comércio, etc).. Surge uma nova compreensão da racionalidade, elemento de base da esfera pública moderna, influenciada, entre outras, pela filosofia Kantiana, que destaca a autonomia e o primado da razão e valoriza a publicidade e a crítica. Neste século, a Opinião Pública significa opinião tornada pública.
A partir da segunda metade do século XIX, as massas penetram no espaço público, fazendo-se representar em associações, partidos políticos e na Imprensa. Na democracia de massas, predominam os ideais socialistas e o espaço público é um espaço de conquista de direitos, reivindicação e afirmação de poder. Na concepção liberal, destacam-se ideais burgueses, e o espaço público é a salvaguarda de privilégios. Do confronto entre ambas, resulta a fragmentação da opinião pública, pondo-se em causa o princípio da concordância social de interesses e da demonstrabilidade de um interesse geral.
Os media têm, para Habermas, um papel central na democracia de massas ao serviço dos interesses particulares instituídos. Isto origina uma mutação no entendimento de publicidade:, assiste-se a uma refeudalização da esfera pública, que se caracteriza pela representação das relações públicas cuja legitimidade assenta nas características da esfera pública liberal, no plano teórico, e características feudais no plano prático.
Alguns autores denunciam a falta de distanciamento de Habermas em relação à retórica burguesa e aos ideais propagandeados de esfera pública. Richard Sennett, em “O Declínio do Homem Público”, salienta a diversidade do novo grupo social, complexificando o universo burguês. A partir do século XVII, o espaço público torna-se uma região especial da vida comunitária. O público-plateia está sob a alçada do mundo feudal, é um grupo reduzido, de origem burguesa, que se conhece e encontra em espaços comuns. A partir do século XVIII, com a expansão da economia de mercado, as cidades crescem e o público torna-se um grupo urbano e cosmopolita, aumentando em dimensão e diversidade. A burguesia é um grupo complexo, heterogéneo e até mesmo hierarquizado, que engloba conhecidos e estranhos, encontrando-se em cafés, onde discurso e arte de conversação marcam a diferença.. A partilha de discurso desenvolve a noção de público e comunidade. Surgem novas formas de convívio, os clubes, que se distinguem pela selectividade: quem diz é mais importante do que é dito (personalização do discurso). “A Teoria da Expressão” de Sennett designa a retórica pública como um discurso convicto e emocionado, que padroniza os desempenhos no espaço público e atribui elevado peso à personalidade.
O tema “ Complexidade social e opinião pública “ relaciona-se com a reformulação do conceito oitocentista de opinião pública, que discorda das teorias racionalistas-iluministas. Segundo Luhmann, as sociedades modernas apresentam uma crescente indeterminação social e um aumento da improbabilidade de comunicação. Para as contornar, ele apresenta a Tese de Simplificação, redutora da complexidade: a comunicação simplificada é possível graças aos” meios de comunicação simbolicamente generalizáveis “. Temos a sociedade possível à imagem da comunicação possível. Os “sistemas-referências propostos por ele são meios de resolver a complexidade crescente dos sistemas. O conceito de opinião pública é reformulado por ele e torna--se um espelho que reflecte o poder político e a oposição, tornando-se um “mecanismo-guia “do sistema político. A comunicação é entendida como selecção de um repertório comum a ambas as partes envolvidas no acto de comunicação.
A ideia de novo espaço público e nova opinião pública deve-se à crescente importância dos media, especialmente a televisão, e à sua centralidade nas sociedades actuais, como condutores da agenda política e orientadores da agenda pública. Segundo Wolton, a consolidação do campo dos media remonta ao século XIX e é fruto de três factores: advento da sociedade de massas; consolidação da sociedade de massas; institucionalização dos media de massas. A sociedade de massas está relacionada com a génese e consolidação da Revolução industrial, fruto do êxodo rural. A democracia de massas, que apresenta um modelo igualitário entre os indivíduos (inicialmente só do sexo masculino), baseia-se na legitimidade do poder político e no alargamento do sufrágio universal. Os media de massas permitiram o aumento da produção e a redução do preço de capa, que possibilitaram a expansão dos media com o aumento da circulação, tiragens e vendas. Paralelamente, o alargamento do ensino obrigatório reduziu as taxas de analfabetismo e favoreceu a ampliação do público-leitor potencial. A consolidação do campo dos media e a sua consequente centralidade nas sociedades modernas é reforçada pela emergência de novos valores que se convertem em padrões de vida e orientam o funcionamento das sociedades democráticas, tornando-se valores de ligação e interacção.
O controlo da palavra pública torna os media autónomos e faz sobressair a ideia do “contrato social “,acordo entre os media e a sociedade, que assenta na dupla vertente de informar e ser informado. Os media são essenciais para assegurar o cumprimento deste contrato, como meio técnico que une público e evento, “Ideologia da Objectividade”. Gaye Tuchman, em a “ A objectividade como ritual estratégico”, diz que a notícia reflecte o ponto de vista do jornalista. Para terem o controlo da palavra pública, os media devem ser objectivos e imparciais. Segundo Negrini, eles são a principal fonte de conhecimento a que os indivíduos acorrem em busca de informações sobre o mundo. Para Missika e Wolton, a televisão é o novo espaço público (encontro e debate), um espaço-síntese com um papel importante na formação da opinião pública. Negrini defende que a opinião pública é manipulada pelos media que a apresentam como um suporte dos pontos de vista em circulação. Para ele, o público é muito mais do que a audiência dos media. As “ Communication Research “ desenvolveram-se a partir do século XX nos Estados Unidos e estudam a recepção dos meios de comunicação, procurando identificar os seus efeitos desses na formação da opinião dos indivíduos. A Corrente dos Efeitos Directos(anos 20-40) é o primeiro estudo realizado e apresenta os meios de comunicação como a causa de mudanças de opinião e comportamentos. A Corrente dos Efeitos Limitados (anos 40-60) coloca um limite aos efeitos dos media, pois considera que o receptor tem capacidade para resistir às mensagens e intenções dos emissores, dando a massa lugar a uma comunidade de públicos. A partir dos anos 70, as Teorias dos Efeitos Cognitivos estuda o consumo, recepção, uso e utilização dos media pelos indivíduos, pretendendo determinar as condições de recepção dos produtos dos media e o sentido que lhes é atribuído. A Teoria da Dependência de Ball Rokeach e De Fleur realça a crescente dependência dos indivíduos face aos media. Esta teoria alerta para a necessidade de outras fontes de informação, para que a percepção do mundo não se limite às imagens que os media transmitem. Dentro do modelo dos Efeitos cognitivos, há que referir três correntes que analisam a influência dos media na formação da opinião pública: Hipótese da Agenda–setting; Espiral do Silêncio; Hipótese do Distanciamento.
No segundo artigo, estão patentes dois objectivos: a análise do Espaço Opinião na Imprensa e a reflexão sobre a influência da transformação do campo dos Media. Prosseguiremos agora com a análise de “Diário de Notícias” e “A Capital” e de “Expresso”, “Semanário” e “O Independente”. Em relação aos anos 80, encontramos a Opinião sob os registos género jornalístico e secção temática em todos os jornais, excepto no “Diário de Notícias”. A Opinião, enquanto género jornalístico, encontra-se estabilizada e enraizada nos diversos títulos de Imprensa, havendo partilha de características desta modalidade nas diferentes publicações. A Opinião, enquanto secção temática, ainda se encontra em formação, com muitos convidados que participam de forma irregular e pouco periódica, o que não favorece a consolidação de uma identidade definida. Exceptuando “A Capital”, encontramos em todos os periódicos um Editorial e Cartas de Leitor. Nesta década, assistimos à estabilização da sociedade democrática e à respectiva evolução e acompanhamento dos media. Nos anos 90, o Espaço Opinião consolida-se, enquanto secção temática, registando-se intervenções de jornalistas, figuras públicas e anónimos. As reestruturações realizadas pelo “Expresso” e “Diário de Notícias” podem ter influenciado os seus concorrentes. Os jornalistas ganham peso na produção de textos opinativos, independentemente da sua experiência.
Concluímos que o Espaço Opinião institucionaliza-se, abandonando a indefinição e a irregularidade do início dessa década. Nos anos 90, não há grandes alterações no conteúdo do Espaço Opinião e regista-se uma preocupação de diversidade e pluralismo que leva à procura de colaborações externas, inclusive de anónimos e outros jornais.
Sexta-feira, Outubro 17, 2003
Olá, a todos. Foi criado este blog para alojar os textos dos alunos da cadeira de Teorias da Comunicação, do curso de Comunicação Social e Cultural da Universidade Católica Portuguesa.
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